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Kid M

Ribeirinhos na Amazônia (como exemplo)...

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Tenho certeza que muitos de nós já presenciou cenas em que as "condições de vida" de famílias ribeirinhas são incrivelmente difíceis de serem aceitas !

Quem possui uma canoa já é considerado e se esta tiver um motor rabeta então, já será invejado por seus próximos, pois é "o topo" desejado por grande parte deles... Não pensem que escrevo isso "achando" que isso é bom ou ruim, pois se trata da realidade, principalmente quando nos afastamos dos centros ditos civilizados. Uma parte desses "ribeirinhos" consegue se estabelecer numa "comunidade", onde outras famílias (poucas na verdade) se instalam e desfrutam de um trabalho conjunto, onde cada indivíduo tem suas obrigações e deveres, independente de idade... (voltarei a isso mais adiante...)

Já tive oportunidade de encontrar uma menina de uns 12 anos (parecia ter no máximo 8 anos) num desses afluentes que parecem não terminar jamais... que nunca tinha provado um refrigerante ! Coca cola para ela foi uma descoberta, com direito a risos ao constatar as bolhas de gás dentro da latinha... Nunca me esquecerei de sua expressão iluminada para essa "novidade", que para qualquer um de nós é algo mais que rotineiro...

Pois então, quero aproveitar esse "gancho" para fazer um questionamento que poderá ser contundente se for mal interpretado na sua essência...

Será que alguém "sente falta" daquilo que não conhece ? Será que mesmo com as dificuldades de sobrevivência na selva amazônica (não se iludam...) existe essa síndrome de "infelicidade" que vemos presente hoje em nossas cidades e até mesmo em algumas de nossas famílias ? Não digo que seja certo ou errado, mas já tive oportunidade de interagir com algumas dessas pessoas e fiquei bastante surpreso com as posições delas, principalmente em termos de realidade de vida ! Quanto mais se conhece, maior passa a ser a vontade de usufruir daquilo que foi "descoberto", mas nem sempre essas "coisas" se tornam prioridades... É difícil até de aceitarmos isso... Para a realidade dessas "pessoas" (os ribeirinhos) a principal preocupação não é com o "amanhã", e sim com a "superação diária" de seu dia a dia ! Os conceitos de economia são diferentes dos que estamos acostumados a vivenciar. Não há "moeda" melhor que o dia ganho... (qualquer que tenha siso o desafio encarado). 

Voltando a falar das "crianças ribeirinhas" e algumas de suas comunidades, há um Brasil desconhecido da maior parte de todos brasileiros... Avaliem essa situação ! Num momento de céu escuro, roncos de trovoada e relâmpagos típicos de uma tormenta tropical, fomos (minha dupla de pesca) levados a procurar abrigo num ponto "menos desabrigado" mais ainda bastante ventoso (águas com ondas espumantes...), onde pouco depois de nossa parada abaixo de uma comunidade local, apareceu uma canoinha com duas crianças (irmãos na verdade). A canoa era uma piroga, dessas cavadas de um tronco e mal acomodava a ambos. O menino (menor) ia remando e a menina tirando a água da "embarcação"... Se aproximaram sem qualquer vestígio de surpresa e/ou espanto, com uma naturalidade que os faziam parecer com "guias de turismo".

Lógico que a conversa fluiu e para minha surpresa constatei alguns fatos extraordinários (pelo menos para mim). A menina era a responsável na comunidade pela criação das galinhas e patos. Ela é que tinha que zelar e prestar contas dos indivíduos, inclusive se fossem atacados (e levados por animais silvestres). O menino era co-responsável pelo fornecimento de peixe fresco na comunidade (eram dois nesse serviço). Usavam uma redinha de "3 malhos" que merecia "pena" de quem a visse... Indaguei-lhe onde ele usava esse "artefato" tão pouco confiável e ele me mostrou um pequeno córrego (igarapé para eles) junto de onde estávamos, onde o peixe se embaraçava nas malhas dessa redinha ao passar por onde ela ficava estendida. Explorando mais o tema perguntei-lhe o que acontecia quando por algum motivo ele e o outro co-responsável não conseguiam pegar alguma coisa ? Nada, comeriam alguma caça ou mesmo matariam uma galinha para todos comerem com farinha. Claro que a pergunta inversa foi feita, ou seja e se pegassem muito peixes, o que faziam, e o com olhar de dúvida pela pergunta, tive a seguinte resposta (que jamais esquecerei enquanto for lúcido). "Soltamos aqueles que não iremos usar no dia". Claro que insisti na ideia de manutenção dos demais para posterior aproveitamento na comunidade (salgado, defumado, etc...), mas eles ainda surpresos me indagaram se não seria melhor comer peixe fresco todo dia em vez de "velho" ?

Vamos a outros fatos dessa comunidade. Eram apenas 7 famílias básicas (40 pessoas). Quase todos eram mestiços indígenas com casamento dentro das famílias (normal). Nascimentos de mães com 12 anos eram relativamente constantes. Havia um gerador diesel que era ligado às 18 h e desligado às 20 h. Uma capela, campo de vôlei e futebol para os jovens, além de uma pequena escola que agregava a redondeza. A professora vinha 3 vezes por semana, em rodízio com outra comunidade similar (nesse local a escola/capela abrigava 30 meninos em diferentes estágios e idades - todos sob a tutela da mesma professora). A horta era compartilhada por todos. Os homens da família trabalhavam com suas mulheres na "roça" quando não tinham alguma atividade mais atrativa - dois piloteiros que estavam no nosso barco hotel eram de lá. Outros dois eram fiscais do Ibama, cabendo-lhes manter o equilíbrio na região, mesmo caçando de vez em quando... mas eram atuantes segundo nossos piloteiros. Quinzenalmente tinham a visita de uma enfermeira e mensalmente de um médico, ambos trazidos e levados em "rabetinhas"...   

Me pergunto se essas pessoas são realmente "infelizes", ou se somos nós que assim achamos, nos projetando nelas como desejo de podermos encarar a simplicidade com que vivem e a maneira como encaram "suas dificuldades". Não vi em momento algum o "olhar de cobiça" ou mesmo o de inveja por nossos equipamentos de pesca. Vivenciei sim, a oferta que tivemos em dividir a refeição deles conosco com absoluta naturalidade. Tudo muito simples, direto, sem "rami rami" ou ambição de "galgar degraus" ! A vida como esta se apresentou a eles ! Será que essa turma está preocupada com o preço do dólar ?    

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Todo relado esta perfeito, vivenciei o mesmo que você. Acredito que eles dentro de toda essa simplicidade, vivem e desfrutam de um mundo maravilhoso. 

 

 

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Muito legal seu texto, Kid! morar na Amazônia é um privilégio, tantas vezes me deparei com a realidade que você descreveu, a felicidade existe e passa despercebida bem diante de nossos olhos, já outros aproveitam e são felizes. Um abraço.

  

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Grande Kid, exatamente o tipo de pregunta que me faço sempre que volto de la.

 

Eu falo pra td mundo que pescar na amazonia inclui uma grande experiencia antropologica, inclusive "inversa" ou introspectiva, sendo que eu pelo menos, volto sempre com muitos (de repente nao seja a melhor palavra) questionamentos a meu propio ritmo de vida.

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São situações especiais, dentro da minha visão simplista. Eu vi um caso/situação durante uma pescaria no Jurubaixi, se não me engano, que nunca me saiu da memória. Quando estávamos regressando para o Barco Hotel percebemos alguém sinalizando pra nós, tentando chamar nossa atenção. Avisei o piloteiro e o mesmo disse que era "pidão". Bom, imaginei que se alguém precisa de um socorro num lugar daqueles nada mais justo dar uma ajudinha. Fizemos a volta e nos aproximamos do canoeiro. Era uma canoa de tronco, com  um palmo de água dentro. O pescador pediu um litro de gasolina, perguntei se ele tinha algum vasilhame e ele disse que tinha um saco plástico (o saco tinha vários furos). Bom, fornecemos um pouco de combustível e o mesmo saiu remando o mais rápido possível. Observei que o sujeito tinha um tom de pelo amarelado, características de quem bebe água do rio,  as unhas dos pés constantemente molhadas estavam se despregando dos dedos. Pensei comigo: isto é vida que alguém mereça? Uma vida naquela situação dura quanto tempo? Será que foi uma escolha pensada?  Fica aí meu relato para reflexão.

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